domingo, 11 de outubro de 2015

E ninguém disse que seria fácil...



O jargão “viver é uma arte” é dos mais verdadeiros e não é, de forma alguma,  uma arte fácil. A vida não é preto branco, boa ou má, é tudo isso e todas as variações que existem entre um extremo e outro. E ao mesmo tempo não há classificação possível nessa curta, estranha, empolgante, assustadora e bela experiência da existência... Não há manual de instruções, não há fórmula, não há nada disso. E não há nada que nos prepare, não há atalho, só é possível viver... De preferência sem medo, às vezes saltando com o vagão ainda em movimento porque cada estação que se vai é única, não volta e só é possível saber se é a certa ou não no risco, sem o qual vamos ver a história passar pela janela. E essa divagação barata sobre a vida? É apenas uma repetição do óbvio, mas até isso precisa ser dito de vez em quando. Eternidade é mera abstração e, definitivamente, é algo que não temos.
Gonzaguinha disse bem: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz"

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Humor sem Senso


O fato de o programa “Pânico” prescindir de qualquer bom senso para produzir suas “piadas” não é nenhuma novidade. É o tipo de humor que se vale mesmo do mau gosto e do vale tudo. Há quem defenda que, tratando-se de “fazer graça”, realmente vale qualquer coisa. Discordo. Se o humorista precisa recorrer ao preconceito para fazer rir, isso só prova o quanto o sujeito é limitado e mal intencionado mesmo. Não tem meio termo pra isso.  Nos comentários do post relacionado ao quadro racista do programa houve quem argumentasse que “agora tudo é racismo, preconceito, etc”. A velha retórica que tenta desqualificar quem achou a piada ofensiva utilizando termos como “mi, mi,mi” ou “politicamente correto”. A pergunta que me vem é a seguinte: O que você entende por “preconceito”? Uma das formas mais eficazes de perpetuar estereótipos negativos em relação a gênero, etnia ou orientação sexual é justamente aquela piadinha cotidiana, rasteira e imbecil que de inocente não tem nada, já que ela nasce de uma cultura que realmente naturaliza a inferioridade atribuída a determinados grupos. Dizer que está tudo bem porque “eles fazem piadas de brancos também”, é canalhice deliberada ou (foi mal o termo) burrice mesmo. E eu não sei o que é pior, neste caso. Se for a segunda opção a figura precisa compreender a historia a partir do Big-Bang e haja tempo pra isso. Nessa mesma linha de raciocínio, há quem reclame o fato de a sociedade estar ficando mais “careta”, que antigamente podia tudo e hoje não pode nada. Francamente... “Antigamente” meus ancestrais podiam ser açoitados em praça pública, ser homossexual era crime em várias partes do mundo, um estuprador seria perdoado se aceitasse se casar com a vítima e não faz muito tempo que o Brasil deixou de negar com tanta veemência o seu racismo. Reclamar porque as pessoas não se comportam mais como há anos atrás e não aceitam determinadas manifestações preconceituosas, não faz sentido. O mundo muda, a sociedade muda, e não é quem reclama da piada acéfala e anacrônica que está errado. Tanto o piadista do vale tudo quanto o seu público estão vivendo outro tempo que, felizmente, não volta mais. 

sábado, 1 de agosto de 2015

"Imprensa tem que ser livre...E responsável também"


Pra muita gente é difícil (sabe-se lá o porquê) compreender qualquer crítica à nossa mídia atual como algo que vá além do maniqueísmo ou da disputa entre governo e oposição. O “mídia golpista” pode até ter virado um clichê, com os perigos que qualquer frase feita traz,  mas não dá pra dizer que o termo é gratuito.  Essa semana Romário literalmente "tirou onda" e expôs (de novo) o "jornalismo" medíocre e sempre mal intencionado da Veja. Revistinha que se esconde por trás dos preceitos de liberdade de expressão e liberdade de imprensa para agir da forma mais irresponsável e canalha. Lula decidiu processar o diretor da revista e alguns dos seus funcionários por assinarem um texto falacioso sobre uma delação que nunca aconteceu. Incitar o ódio, publicar inverdades, promover a confusão através do medo, são práticas que parecem fazer parte do modus operandi do nosso jornalismo, com todo respeito aos veículos e jornalistas sérios que ainda dignificam a profissão.

É um exagero atribuir a culpa de tudo à imprensa (assim como o é atribuir ao governo, etc, etc) mas a parcela de responsabilidade dos veículos deve ser cobrada, e não é pequena. Fomentar a ignorância política, o “fla-flu”, a visão superficial e rasteira de tudo, interessa a quem? Ao povo é que não.  

Donos dos jornalões, TVs e rádios rugem com todas as forças quando se fala em regulação da mídia e querem convencer que qualquer movimento nesse sentido significa uma volta à “censura” e usam os termos “democracia” e “liberdade” pra justificar suas ações, até as mais absurdas. Certa vez um professor me disse que o fazer jornalístico consiste em uma tentativa de traduzir o mundo, com suas complexidades e idiossincrasias. Obviamente não é tarefa fácil. Imagine então se isso está nas mãos de quem não se responsabiliza, ou por quem se pauta por interesses particulares dos mais escusos?  Claro que imprensa tem que ser livre, e responsável também.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

FAVELA AINDA É SENZALA, JÃO...


Novo vídeo de Emicida escancara a violência das relações sociais e raciais no Brasil


“Boa esperança” nova música do rapper paulistano Emicida traz sem reticências a raiva e a indignação de quem sempre se viu à margem e sempre foi tratado como sub espécie, sub cidadão, sub...Tudo.  Nestes dias em que a tensão racial volta a ser pauta nas terras do Tio Sam, após  os assassinatos de Michael Brown, em Ferguson, e de Freddie Gray, em Baltimore, a abordagem não poderia ser mais pontual e cirúrgica.  Enquanto isso, no Brasil dos Amarildos e Cláudias, assassinados e sempre anônimos e estigmatizados, as redes sociais tornam-se palco das discussões raciais caladas há séculos por aqui. A jornalista Maria Júlia Coutinho, negra atacada verbalmente na internet por ousar ser a nova "moça do tempo" do Jornal Nacional, torna-se o mais recente símbolo da intolerância racial tupiniquim, ainda vista como uma exceção por aqui.

“Boa Esperança” traz um título irônico.  Ao discorrer sobre o tema da desigualdade social e racial, Emicida apresenta um resumo que mistura relato à fúria e sofrimento. A narrativa do videoclipe dirigido por Kátia Lund (Cidade de Deus) mostra a história de empregadas domésticas que se rebelam contra seus patrões. Sob a trilha sonora impactante e direta são apresentadas as cenas em que senzala toma o lugar da casa grande.  
O vídeo, violento, como é o tema abordado, muda os papéis historicamente conhecidos ao transformar as vítimas habituais em algozes e explicitar o que tem sido negado ao longo dos anos: a “abolição” atendeu a uma necessidade mercadológica, mas não alterou em nada as relações. Os resquícios da sociedade escravocrata permanecem, com os mesmos “sinhozinhos” e capitães do mato. Sintomático no país em que os quase 50% da população, declarados afrodescendentes,  representam mais de 80% dos pobres e são maioria da população carcerária. Já dizia a letra de Marcelo Yuka “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” e acrescento, tem muito!

O vídeo não é apontado como o mais corajoso de 2015 à toa.  É um momento singular da nossa história, em que o conservadorismo sai do armário e mostra garras e dentes para manter posições e privilégios. Tratar de um assunto como este, sempre tratado como tabu, quando não abordado de forma maliciosa atribuindo a existência do preconceito aos próprios negros.
A produção vem sendo taxada de violenta, mas se esquecem que as relações sociais estabelecidas no país são violentas. A violência começa na desigualdade, na disparidade de oportunidades, na proposta punitiva da redução da maioridade penal sem que ao menos se pense em formas de oportunidades iguais aos jovens que querem trancafiar. Diante de tudo isso, do contexto histórico de violência, invisibilidade e exclusão, o  vídeo é apenas uma alegoria "leve" que nem chega a inverter os papeis, apenas apresenta uma possível reação.

 Emicida não se intimida e deixa claro e marcado o seu lado.  O recado foi dado de forma didática.  Uma maioria segregada circula por aí e se os dados não incomodam é preciso chocar pela força das palavras e das imagens.
“Favela ainda é senzala, Jão, bomba relógio prestes a estourar”


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Um pouco sobre persistência, trabalho coletivo e a luta pela continuidade do Klauss Vianna



A batalha pela preservação de um teatro em Belo Horizonte

É comum e generalizada a sensação de impotência diante das decisões que “vem de cima”. É como se as determinações oriundas das grandes corporações ou dos poderes executivo, judiciário e legislativo fossem intocáveis, irrefutáveis, com caráter quase divino. Normalmente pouco se questiona e até mesmo figuras tidas como combativas tendem a entender que certas lutas devem ser dadas como perdidas, diante do medo provocado pelo tamanho e poder do adversário. O mesmo pensamento é compartilhado do outro lado e é neste momento que a espiral do silêncio ganha força. A sensação de embotamento, fragilidade diante das coisas ganha dimensões maiores que o próprio desafio colocado. Felizmente existem as pequenas exceções e que fazem sim, grande diferença frente ao poder de fogo visto como incontrastável ou imbatível. 
Diante da decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais em fechar o Teatro Klauss Vianna e transformá-lo em auditório para suas audiências, um pequeno grupo de artistas se mobilizou para demonstrar o impacto da perda do espaço para a cidade e, assim, reverter o processo. Os indícios não eram os mais positivos.
Não me arrisco na linguagem do “juridiquês”, mas as informações que corriam eram de que a decisão de declarar o imóvel como utilidade pública, bem como a impossibilidade da existência de um teatro sob aquelas condições eram verdades pétreas, finalizadas e indiscutíveis.
Os participantes do movimento Viva Klauss deram o que considero uma das maiores lições de cidadania que pude presenciar na história recente da cidade. A despeito das perspectivas nada otimistas, pelo menos aos olhares externos, o grupo prosseguiu com suas manifestações em frente ao teatro, mesmo com um quórum reduzido, procurou apoio de representantes políticos, tentou sensibilizar a população quanto ao problema e prosseguiu. 

O Klauss Vianna, cuja morte anunciada e “irreversível” estava marcada para o fim de julho, ganhou parecer positivo de continuidade em reunião realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, nesta quarta-feira, 10de junho. Pedro Bittencourt, presidente do Tribunal de Justiça, após toda a mobilização, avalia a possibilidade de manter o teatro em pleno funcionamento, com acesso autônomo independente do tribunal.  É uma “pequena”, mas muito significativa vitória.  Em agosto a questão será votada por 120 desembargadores e, por fim, teremos a definição do destino do teatro. Luta que segue e alguns bons exemplos que ficam e inspiram.


domingo, 5 de abril de 2015

Segurança pra quem?

*pais do garoto Eduardo de Jesus - morto na quarta-feira, no Complexo do Alemão

A imagem do corpo ensanguentado garoto Eduardo de Jesus Ferreira é algo impossível de se digerir. Morador do Complexo do Alemão, o menino foi morto aos 10 anos de idade pela arma de um policial da “Unidade Pacificadora”, a sangue frio.  Um crime hediondo, de uma crueldade sem tamanho marcou a tarde daquela quarta-feira, 01/04, às vésperas do feriado da Páscoa e dias depois da aprovação da redução da maioridade penal, mesmo diante de dado que comprovam que crianças e adolescentes são as maiores vítimas da violência e não o contrário.  Estranhamente não houve grandes manifestações nas ruas para além da comunidade onde aconteceu o assassinato. Não se ouviu ou leu pedidos de “pena de morte” a quem atira em uma criança.  Não ouvimos o bater das panelas, não vimos perfis de facebook em “luto” e nem mesmo uma cobertura ostensiva por parte de uma certa “grande emissora de TV”, cumprindo o dever cívico de denunciar que o que aconteceu não pode ser considerado normal, não pode ser tratado como uma “baixa necessária”. Porque não é. O combate ao crime organizado não pode justificar as mortes criminosas de cidadãos comuns. Estes mesmos não podem ser tratados como cidadãos de segunda classe por serem pobres e moradores de vilas e favelas. É preciso repensar o tipo de polícia que queremos, é preciso (disse e repito) humanizá-la antes de fazer dela um instrumento de “pacificação”. Porque no momento ela não serve para este fim, não quando dados como os levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança apontam que a nossa polícia matou em 5 anos o equivalente ao que a polícia norte-americana matou em três décadas.  A violência perpetrada pelo Estado contra minorias como pobres e negros é prontamente aceita e naturalizada no Brasil. É vista e defendida como algo necessário em nome da “segurança pública”. Mas segurança pra quem?
Se o mesmo fato que ocasionou a morte de Eduardo de Jesus Ferreira, mais um entre tantos, acontecesse em outro lugar onde essa violência não fosse “naturalizada”, como seriam as reações?

Todo respeito aos familiares pela dor e perda irreparáveis. O que foi retirado não tem volta.
Noss@s garot@s precisam de educação de qualidade e não punição. Nossas comunidades querem segurança, não opressão. 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O Tempo é Fluxo




O tempo é fluxo
Não se pode voltar
Não se pode reescrever a história
Em nossas vidas vivemos com nossos erros e acertos
No fim só temos nossas trajetórias
Com ou sem glórias
Não se pode voltar
Não se pode reescrever
No fim só temos nossas memórias
No fim só nos restam as memórias dos outros
As vezes nem isso
Não se pode apagar
O tempo é fluxo
Não se pode voltar

O tempo é fluxo
Impiedosamente contínuo...

terça-feira, 31 de março de 2015

O Retrocesso da redução da maioridade penal


A aprovação da PEC que reduz a maioridade penal para 16 anos representa uma derrota monumental, um retrocesso das discussões mais importantes acerca da juventude brasileira e sinaliza claramente os rumos de um Estado que opta por punir e alijar ainda mais aqueles que são frutos da sua negligência, ineficiência e falta de vontade em dar oportunidades, educação e condições de desenvolvimento. Representa uma resposta falaciosa e intolerante a uma sociedade movida em grande parte pelo medo e pela desinformação. Uma resposta preguiçosa inclusive já que, além de se tratar de uma medida inócua, sem efeito real no que diz respeito ao combate ao crime e à violência, foge da verdadeira discussão que se dá a longo prazo e exige tempo, esforço e vontade política. Falaciosa (novamente) porque os dados demonstram claramente que os jovens são muito mais as vítimas da violência do que a sua causa, ao contrário do que é apresentado pela parcela da imprensa que desinforma.
Ineficiente, porque num sistema carcerário cuja lógica meramente punitiva a recuperação é quase impossível, muito pelo contrário, a redução da maioridade penal só contribui para que o Estado engrosse as fileiras do abandono e do processo de marginalização. A PEC atinge os mesmos de sempre: os invisíveis, sem sobrenome que já são a maioria da população carcerária.

Usando argumentos  da lógica pragmática vigente (que eu particularmente, detesto), é uso do dinheiro do contribuinte pra nada. 
Como já foi dito (não lembro por quem)... Quando nada disso “resolver” (porque solução não parece ser a preocupação) a proposta será reduzir a maioridade para 14, 13, 12...
Queria ver o mesmo empenho deste congresso para colocar essa moçada nas escolas e universidades. Mas aí é “esmola”, né? E isso aqui é “justiça”?

terça-feira, 10 de março de 2015

Sobre panelas e indignações de ocasião...


Estava em minha casa no domingo, 9 de março, quando, desavisado, li sobre um tal “panelaço” que teria ocorrido enquanto Dilma fazia um pronunciamento na TV. Morador da ZN (Zona Norte) que sou, e antes disso, criado na região noroeste de Belo Horizonte, não ouvi nada. Só mais à frente fui entender que os principais focos da manifestação, na qual a presidente foi xingada de “vaca” e aconselhada a “procurar um marido”, entre outras coisas, aconteceu justamente nas ditas regiões tradicionais da cidade, de maior poder aquisitivo, o que, obviamente não deslegitima nada. Todo protesto é livre e “legítimo”, como disse a amiga e jornalista Márcia Maria Cruz em seu post, mas me encabula que a dita parcela “esclarecida” a autointitulada “elite cultural”, portadora dos bons hábitos, dentre os quais se incluem ir ao teatro, cinema e ouvir MPB (porque novela, pagode e funk são coisas de gente sem instrução), tenha que recorrer (de novo) ao que há de mais baixo, incluindo termos preconceituosos, machistas e sexistas como forma de expressão. Detalhe bem lembrado em alguns comentários que li: os ataques ocorreram no mesmo dia em que mandaram flores, chocolates e felicitaram as mulheres pelo “seu dia”, que, pelo visto, acabou mais cedo.  
Nessas horas todo o “verniz” vai por água abaixo e demonstra que a nossa “elite” pode ser qualquer coisa, menos esclarecida.

E não digo isso porque discordo do posicionamento, mas porque as razões são, em sua maioria, ou equivocadas, porque os argumentos apresentados (ao menos os que vi até agora) demonstram que não entenderam realmente lhufas do que tem acontecido na política nacional, ou egoístas, porque no fundo há um preconceito de classe enrustido (agora explícito) que norteia toda a “indignação” além de uma dose cavalar de hipocrisia aliada a miopia, porque se alguém estivesse realmente protestando contra a corrupção estaria gritando por reforma política, não pedindo um impeachment, cuja base legal que o justifique simplesmente não existe. Nem mesmo sob o pretexto da investigação dos escândalos da Petrobrás, cujos desvios datam de mais de 14 anos atrás (no mínimo), tanto que renderam um Prêmio Esso ao jornalista Ricardo Boechat, quando escreveu sobre o assunto ainda nos tempos do governo FHC.

Da minha parte: não sofro de nenhum complexo de avestruz, e na conjuntura política apresentada em 2014 o meu voto seria o mesmo, como foi da Dilma na ocasião. Embora  a minha escolha não tenha sido por um ministério conservador como o que está aí, formado em parte, pela pressão dos “aliados” e para satisfazer o eleitorado “elitizado”, o mesmo do “panelaço” e dos xingamentos nas redes (anti) sociais e que, de vez em sempre, confunde o privado com o público e acredita realmente que dinheiro usado para beneficiar grupos sociais menos favorecidos é única e exclusivamente seu. Gente que, no fundo, se incomoda mais com bolsa família e similares do que com a dita corrupção, porque se a indignação fosse realmente tão grande já teriam pedido a cabeça do Maluf há tempos.

A melhor síntese de tudo isso, bem mais qualificada e menos verborrágica que a minha foi a do Juca Kfouri, de longe um dos melhores jornalistas  do país, pela clareza e honestidade intelectual de seus textos. http://blogdojuca.uol.com.br/2015/03/o-panelaco-da-barriga-cheia-e-do-odio/



domingo, 1 de fevereiro de 2015

Racionais – Cores e Valores (2014)




Muito pode ser dito sobre o aguardado quinto disco do Racionais MCs. As opiniões divergem mas ninguém discorda quanto à quebra de expectativa que o álbum provoca.
12 anos depois de “Nada como um dia após o outro dia” eles retornam com “Cores e Valores” e a novidade não está apenas no fato de lançarem um novo trabalho após mais de uma década, mas na própria forma como o grupo se apresenta. A mudança é perceptível, nítida e causou as mais diversas reações. A essa altura o novo álbum já é sucesso de crítica sendo considerado um dos melhores lançamentos de 2014, o melhor, segundo a lista da Rolling Stone publicada em janeiro de 2015.
Os elogios angariados pela nova obra são por razões óbvias. A primeira: é um novo disco do Racionais MCs, e, isso por si só já diz muito. Trata-se da banda mais importante do rap brasileiro e, superando fronteiras e preconceitos, tornaram-se um dos nomes mais relevantes da música produzida no Brasil nos últimos 20 anos.

O quarteto paulistano também optou pelo risco e foi uma escolha sem medo, e feliz. As músicas são curtíssimas se comparadas com os trabalhos anteriores, clássicos como O Homem na Estrada e Capítulo 4, Versículo 3, têm 8 e 7 minutos, respectivamente, enquanto as faixas de “Cores e Valores” tem duração média de 2 a 4 minutos. O novo trabalho do Racionais MCs resgata o conceito de álbum, do diálogo entre uma música e outra em uma obra, coisa difícil de se manter em tempos de downloads e streamings. Saíram na frente com a proposta. O próprio KL Jay alerta que este é um disco para ser ouvido na íntegra, na sequência proposta.

Os temas abordados também se diversificaram. Para além das dificuldades da periferia brasileira (e até essa crítica assumiu outro tom), o Racionais falam agora das vitórias alcançadas e de amor. Os fãs mais ortodoxos esperavam algo parecido com o que foi apresentado em 2002, quando “Nada como um Dia após o outro dia” foi lançado, mas aquele trabalho já rompia com a narrativa de violência e exclusão apresentada em Sobrevivendo no Inferno (1997).

A realidade é que para muitos o Racionais havia se tornado muito mais que um grupo de rap. O quarteto paulistano se transformou em um símbolo, cujas ações, falas e  frases foram apropriadas por todos os que se sentiam representados por elas e a reação a qualquer mudança de postura não seria amena, tamanha a importância que seus discursos ganharam, mesmo que não se sentissem tão a vontade com isso.
Enfim. O Brasil mudou, a realidade dos integrantes do Racionais idem e, nada mais natural que a música feita por eles acompanhasse essa mudança.
O discurso já se mostra ácido no início quando Brown declama “Na terra onde o herói matou um milhão de índios” e segue. O grupo continua falando do lugar de onde vierem, sob uma nova perspectiva, mas é do lugar do negro. Ice Blue acentua seu poder de consumo na faixa “Eu compro”, mas deixa claro que nem o poder aquisitivo altera o fato de ser um negro no Brasil:
 “um pingente de ouro com diamante safira, no pescoço  um cordão os bico vê não acredita, que um neguim sem pai que insiste pode até chegar, entrar na loja ver uma nave zero e dizer, eu quero eu compro e sem desconto, à vista, mesmo podendo pagar tenha a certeza de que vão desconfiar, pois o racismo é disfarçado há muitos séculos, não aceita seus status, nem sua cor”.

Os versos acima talvez sejam um pouco do que representa “Cores e Valores”. O indivíduo negro que outrora somava-se à massa de despossuídos ostenta uma vitória e uma condição que nunca lhe foi atribuída ou permitida.  Possibilidade proibida, quase como uma afronta, e que agora é assumida, fazendo coro aos garotos do “rolézim” e aos pobres que agora incomodam a classe média brasileira quando ocupam, sem pedir licença, shopping centers e aeroportos.

Em “Você me Deve” Brown exclama “Vida loka original, dos barracos de pau. Percebeu, que o vil metal só não quer quem morreu, morou meu? ”
Os Racionais , como não poderia deixar de ser, continuam a cantar a periferia, mas uma periferia que percebe seu poder, ganhou alguma mobilidade – ainda que mínima -  e quer mais, muito mais do que falar das suas mazelas. Quer espaço. Quer poder. Quer voz, num momento em que tem condições para tanto. A capa de Cores e Valores reflete essa periferia, que não vai pedir licença e vai ocupar o lugar que lhe é devido. É trajetória do próprio grupo, descrita de forma metafórica naquela imagem. Uma espécie de síntese das batalhas empreendidas em 25 anos, período em que viveram no front e tiveram que lidar com o peso da narrativa apresentada por eles bem como os ataques de um país moralista, elitista e, desde sempre, racista. 
  
 O disco abre espaço também para a auto-reflexão do grupo que completa duas décadas e meia e experimentou episódios gloriosos e tristes. Em “A Praça” Edi Rock relembra o evento trágico acontecido durante o show da banda na Virada Cultural 2007, que resultou em diversos feridos na Praça da Sé.  Fato superado. Os sobreviventes do inferno mostraram em sua turnê comemorativa o quanto estão amadurecidos bem como a capacidade agregadora do seu discurso, que hoje  atinge jovens e adultos das mais diversas classes e localidades. A voz forte de Edi Rock retorna em “O Mal e o Bem”, faixa que traz elementos da música negra produzida em meados dos anos 80, a qual o rapper relembra os 25 anos de trajetória e os momentos marcados pela música do grupo.

Quanto vale o show”, primeira música do novo trabalho a ser divulgada, traz o sampleia “Gonna fly Now”, tema de Rocky o Lutador. A trilha é emblemática e, a exemplo de “O mal e o Bem” também é saudosista. Brown relembra sua juventude na selva de pedra paulistana, os primeiros bailes, as dificuldades financeiras e sua relação com o samba e o soul, com ídolos como Curtis Blow e Bezerra da Silva. O verso é viceral e tenta trazer a energia daqueles dias e denuncia que, ainda naquela época “O preto vê mil chances de morrer, morô? Com roupas ou tênis sim, por que não?”.  Anos atrás Mano Brown foi surpreendido com a reação virulenta dos fãs contra a sua “Mulher elétrica”, música dançante, com base funk sampleada do clássico Eletric Lady (Confunkshun). Sem se intimidar, Paulo Soares apresenta outra balada soul com “Eu te Proponho”, primeira letra romântica da discografia do Racionais, homenageando mestres como Cassiano, já apresentando um pouco do que pode vir a ser o seu já anunciado disco solo.
Embora não seja o tema principal, o crime e a violência continuam a ser tratados nos versos do grupo, como na faixa “A escolha que eu fiz”. 

Cores e Valores não é unanimidade, como nenhum dos álbuns anteriores, embora possa ser o mais controverso eles, mas, assim como os demais, demarca sua passagem com dignidade.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Contra toda e qualquer violência...Indignar-se é preciso



A Anistia Internacional tem se manifestado de forma muito veemente contra o genocídio de jovens negros no Brasil. Um relatório recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indica que a polícia brasileira matou em 5 anos mais do que a polícia norte-americana matou em 30 anos. 11.197 óbitos no Brasil contra 11.090 nas terras do Tio Sam, num período seis vezes superior e a grande maioria das vítimas são pobres, pretos e favelados.
O texto publicado na revista Carta Capital da primeira semana de janeiro, intitulado “A violência tem cor”, escrito pelo diretor da Anistia Internacional, Atila Roque, chamava a atenção para o quanto essa violência é sistêmica e, pior ainda, naturalizada. Como se não bastasse a disparidade econômica, a invisibilidade histórica e social, o jovem negro no Brasil ainda precisa lidar com o fato já aceito de que tem maiores possibilidade de morrer assassinado do que indivíduos de outros grupos étnicos. O mesmo texto chama a atenção ainda para o caso do assassinato do jovem Michael Brown, na cidade de Ferguson. O garoto desarmado que foi morto a tiros por um policial branco. Aquilo causou uma comoção em todo o país, revolta que acabou reverberando em várias partes do mundo. No Brasil esses assassinatos não significam quase nada. Pertencem à “ordem natural das coisas” como se essa fosse uma trajetória inevitável destes jovens. Já dizia Edy Rock na música “Negro Drama” (Racionais MCs) “Me ver pobre, preso ou morto já é cultural”.  A letra resume bem a situação. Está tudo aí, colocado: a violência, a pobreza, as drogas e um massacre que, inexplicavelmente é visto como algo banal. Nada, simplesmente nada aconteceu. Me lembrei de um episódio de quando eu estudava na 7ª série numa escola estadual do bairro onde cresci, Jardim Alvorada, região noroeste de Belo Horizonte. Estudávamos no turno da noite e um amigo meu mexeu com um policial que estava do lado de fora. Ele gritou lá de cima “Ô gambé!”. O PM olhou e viu nós dois. Era uma brincadeira, coisa de criança. Principalmente de uma criança acostumada a ver a polícia tratar todo mundo com desrespeito. Quem mora nos bairros mais pobres sabe do que estou falando. Quando saímos fomos prontamente abordados por 3 ou 4 policiais. Um deles foi bem claro quando apontou a arma para o meu rosto e disse com todas as letras que, se quisesse, me mataria ali mesmo e não aconteceria nada. Meu corpo só ficaria ali, com “um buraco na cabeça”, como ele enfatizou bem. A situação talvez não tenha ficado pior porque um deles tratou de conter os demais colegas, dizendo que éramos só estudantes e trabalhadores. Fomos liberados.  Lógico que me assustei. Mas não acreditava, naquele tempo, que pudéssemos, de fato, nos tornar vítimas ali, naquele dia e local. Anos depois, quanto mais leio a respeito, vejo notícias, dados estatísticos, mais percebo que o policial não estava mentindo. Realmente ele poderia fazer o que quisesse ali e não aconteceria nada, assim como não aconteceu nas vários assassinatos que ocorrem no Brasil ano após ano. Precisamos nos indignar com toda e qualquer violência, aqui, ou em qualquer parte do mundo, e não é possível que tantas mortes continuem sendo tratadas como números estatísticos frios.