quarta-feira, 5 de março de 2014

ROBOCOP

José Padilha supera o estigma dos remakes ao apresentar uma versão relevante do policial do futuro

José Padilha, responsável pelos dois “Tropa de Elite” e “Ônibus 174”, encarou um desafio espinhoso ao refilmar o clássico Robocop, do profícuo cineasta Paul Verhoven.  Há tempos Hollywood sofre de uma profunda crise criativa (dos produtores e não dos diretores), resultado do inchaço da própria indústria que a obriga a recorrer a fórmulas comprovadamente funcionais e rentáveis, e eis que os famigerados remakes se apresentam como soluções excelentes para manter os cofres aquecidos. Claro, o resultado, na maioria das vezes é catastrófico, vide a versão (desnecessária, como a maioria) do filme Psicose, de Alfred Hitchcock.  A desastre comprovado no desperdício de película em questão serviu como aviso de que algumas coisas não precisam e não devem ser refeitas, embora isso pouco signifique para a lógica do lucro, que, no fim das contas é o principal motor da máquina hollywoodiana.
Enfim, em meio a este cenário de reproduções caça-níqueis, o Robocop do brasileiro José Padilha consegue um resultado bem acima da média. Embora o estilo marcado pelo humor ácido e violência explícita constituíssem características marcantes das obras de Paul Verhoven, o que torna ainda mais complicada qualquer tentativa de emulá-las, Padilha imprime sua própria visão e estilo ao filme.  A história, que explora o papel das megacorporações e sua influência na política e, consequentemente, na vida cotidiana, estabelece diálogo direto com os trabalhos do diretor brasileiro, que já explorava o tema da violência exercida pelo poder em seus filmes anteriores. Sob o olhar de Padilha, a história do policial Alex Murphy abordou temas atuais, como a crescente militarização da segurança pública, e apresentou situações que servem de alusão tanto à interferência bélica dos Estados Unidos no oriente médio e demais economias em desenvolvimento, quanto às ocupações das favelas cariocas, através das UPPs (Unidades Pacificadoras). A violência apresentada no filme de 1985 era clara, sem subterfúgios, além de tratar de outros temas incômodos e que ainda são pautas para a sociedade atual. A nova versão mantém a relevância e consegue ser mais que uma simples (e dispensável) atualização do original. O drama do homem que tem mais de 90% do seu corpo substituído por próteses cibernéticas e se esforça para manter sua humanidade ganha outros contornos, deixando a perspectiva do policial Alex Murphy mais evidente.  Samuel L Jackson interpreta um apresentador sensacionalista e reacionário, bem ao estilo Sheherazade e Datena, o que conduz o espectador pelo viés ideológico da mídia vigente, bem como pelo loby dos setores conservadores, ao mesmo tempo em que apresenta um sub-texto que contradiz o discurso oficial apresentado. O filme traz pontos de vista diversos, sobre questões que estão longe de ser simples o que fez com que alguns o apontassem como uma obra confusa e indefinida. Para mim, a escolha por uma visão caleidoscópica é ousada e traduz bem o grau de fragmentação em que as sociedades se encontram. A transcrição de um cenário complexo como este não é tarefa das mais simples, mas o resultado não deixa a desejar.

Entre tantas coisas, é bom perceber que a assinatura de Padilha se mantém intacta e, independente das inevitáveis comparações com o anterior, para o bem e para o mal, o novo Robocop não é um mero pastiche e não supera apenas a qualidade duvidosa da onda de remakes, é também um filme de verão superior a outros trabalhos feitos para agradar a audiência.

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